Gilmar Mendes suspende cobrança de cheque especial não utilizado

O ministro Gilmar Mendes, do STF, suspendeu a eficácia do artigo 2º da resolução 4.765/19, do Conselho Monetário Nacional, que passou a admitir a cobrança de tarifa pela oferta de cheque especial por instituições financeiras mesmo que o serviço não seja utilizado.

A decisão se deu na concessão de medida liminar em ação do partido Podemos, que será submetida a referendo do plenário.

Conforme S. Exa., até a edição da resolução, apenas a concessão de crédito, em caráter emergencial, para cobertura de excesso sobre o limite previamente pactuado de cheque especial, poderia ser cobrada pelas instituições financeiras como serviço adicional.

O ministrou apontou que os bancos não cobravam por serviço de disponibilização e/ou manutenção mensal de cheque especial, criado há 40 anos, uma vez que apenas a cobrança dos juros era permitida e tão somente quando houvesse a efetiva utilização (e sempre proporcional ao valor e ao tempo usufruídos).

De acordo com o relator, muitas pessoas são incentivadas a contratar essa
modalidade de crédito, mesmo com a ciência de que podem nunca vir a
utilizá-la. “Toda essa realidade deve ser harmonizada com os postulados
constitucionais, entre eles o da proteção ao consumidor”, disse.

Legalidade

O ministro Gilmar Mendes ressaltou que a cobrança, apesar de se denominar
“tarifa”, parece se confundir com outras duas potenciais naturezas
jurídicas: tributo, na modalidade de taxa, tendo em vista que será cobrada
apenas pela disponibilização mensal de limite pré-aprovado do cheque
especial; ou cobrança antecipada de juros, diante da possibilidade de
compensação da “tarifa” com os juros.

Segundo ele, na primeira situação, haveria a violação ao princípio da
legalidade tributária, pois a taxa somente pode ser instituída por lei em
sentido formal e material, como estabelece o artigo 150, inciso I, da
Constituição Federal (CF).

Em relação à segunda possibilidade, a cobrança seria inconstitucional por
colocar o consumidor em situação de vulnerabilidade econômico-jurídica
(artigo 170, inciso V, da CF), ao dissimular a forma de cobrança
(antecipada), como a própria natureza da cobrança de juros para atingir
todos aqueles que possuem a disponibilização de limite de cheque especial.

Proporcionalidade

Para o relator, o CMN poderia ter tomado soluções menos gravosas para
diminuir o custo e a regressividade da cobrança, considerando que o cheque
especial é mais utilizado por clientes de menor poder aquisitivo e educação
financeira, além de racionalizar o seu uso pelo consumidor.

O ministro Gilmar Mendes frisou que o CMN poderia ter optado por instituir
autorização de cobrança de juros em faixas, a depender do valor utilizado ou
do limite exacerbado, porém escolheu modalidade de cobrança que se assemelha
a tributo ou a adiantamento de juros com alíquota única (0,25% ao mês, cerca
de 3% ao ano), por serviço não usufruído (empréstimo de capital próprio ou
de terceiro), em ambas as situações.

De acordo com o relator, em análise liminar, há indícios de que a resolução
também contraria o inciso XXXVI, do artigo 5º da CF (a lei não prejudicará o
direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada), pois incide
sobre contratos em curso, já que retroage sua eficácia (a partir de 1º de
junho de 2020) para alcançar pactos firmados anteriormente que não previam
qualquer custeio de manutenção do limite disponível.

Por fim, o ministro Gilmar Mendes determinou a conversão da ADPF em ADIn.

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